A inteligência artificial mudou mais os clientes do que os designers.

A inteligência artificial mudou mais os clientes do que os designers.

Escrito por Stephanny de Paula

Parte 2 - As Perguntas Certas

No primeiro episódio dessa série, a gente falou sobre como a inteligência artificial mudou mais os clientes do que mudou os designers, e eu prometi que não ia entrar na discussão sobre se as ideias geradas por IA eram boas ou ruins.

Hoje eu quero falar exatamente sobre isso.

Muita gente acha que, quando um designer critica o resultado da inteligência artificial, ele está só defendendo o próprio mercado. Ou então que ele está julgando tudo por gosto pessoal.

Mas eu acho que o problema é outro.

O resultado da inteligência artificial só pode ser tão bom quanto o prompt que você escreve. Só que existe um problema. A maioria das pessoas sabe dizer o que quer. Mas muito poucas conseguem explicar o que realmente precisam.

Vou te dar um exemplo.

Você pede para a IA aumentar o logo.

Ela aumenta.

Você pede para um designer aumentar o logo.

E, idealmente, ele responde:

"Qual problema você está tentando resolver?"

Porque talvez o problema não seja o tamanho do logo. Talvez você ache que sua marca não está sendo lembrada. Talvez você sinta que as pessoas ainda não confiam no seu produto. Talvez a hierarquia da página esteja errada. Ou talvez o problema seja completamente outro.

Na verdade, eu fui perceber isso na universidade.

Eu estudei Design na PUC-Rio e, nos dois primeiros anos do curso, eu praticamente não desenhei nada. A maior parte do tempo foi aprendendo justamente a não sair propondo soluções antes de entender qual era o problema. E, olhando para trás, acho que essa foi a habilidade mais valiosa que eu aprendi.

Um bom designer não é treinado para responder perguntas. Ele é treinado para descobrir se aquela era mesmo a pergunta certa. Mas a história não termina aí.

Porque um prompt não depende só da sua capacidade de escrever. Ele depende do seu discernimento. E discernimento depende de contexto.

Quando um cliente chega até mim, ele me conta sobre o negócio, sobre os concorrentes, sobre os clientes, sobre os objetivos, sobre os medos, sobre as referências que ele gosta e as que ele odeia.

O meu trabalho é organizar tudo isso. É isso que eu chamo de contexto.

E contexto serve para uma coisa muito importante: Permitir que a gente faça bons trade-offs.

Porque nenhum projeto otimiza tudo ao mesmo tempo. Uma marca de luxo pode abrir mão de clareza para transmitir exclusividade. Uma revista de moda pode sacrificar legibilidade para construir atmosfera. Um e-commerce normalmente faz a escolha oposta. Nenhuma dessas decisões está certa ou errada.

Elas só fazem sentido dentro do contexto daquele projeto.

Agora pensa no que acontece quando você pergunta para uma inteligência artificial:

"Esse logo está bom?"

"Esse site está bonito?"

"O que você mudaria aqui?"

Ela até consegue responder. Mas ela não participou das conversas que levaram àquelas decisões. Ela não sabe quais concessões foram feitas de propósito. Ela não sabe quais objetivos eram mais importantes do que outros. Ela não conhece o contexto. E sem contexto, a IA otimiza.

Mas otimizar nem sempre é a decisão certa. É por isso que eu acho perigoso quando a gente diz que a IA substitui um designer. Ela realmente acelera respostas. Mas ela nunca vai parar para perguntar se você está tentando responder à pergunta certa. E perguntas erradas inevitavelmente levam a soluções erradas, por mais bonitas, rápidas ou eficientes que elas pareçam.